sábado, 21 de janeiro de 2012

Angola: a terceira alternativa (9). Marcolino Moco, político e professor universitário


Desde a altura da independência que se devia encontrar um solução de terceira alternativa (nem independência de Cabinda nem a sua integração a uma Angola centralizadamente unitária) à semelhança da relação entre Portugal e seus arquipélagos ou (solução mais africana) entre o antigo Tanganica e o Zanzibar que geraram a Tanzânia do (Mualimo) Julius Nierere. Mas, não. Soluções de primeira alternativa não admitem conversas e atrasos e tudo se resolveu à pancadaria. Mas não podemos esquecer que isso se enquadrava no ambiente de Guerra-Fria de então.

www.marcolinomoco.com

Hoje, mesmo depois da mais que demonstrada inutilidade deste tipo de atitudes, em relação à Cabinda; à pancada, a prisões reconhecidamente de natureza política e de mera consciência, sucedem-se soluções enviesadas: não se discute com quem realmente tem condições para representar os amplos sectores independentistas de Cabinda, vivendo no estrangeiro ou em Angola, mas com quem, como referimos acima, tem um mandado de captura internacional a pender-lhe como uma espada de Dâmocles.
Não temos uma solução acabada para um problema que se apresenta tão complexo. O que acreditamos é que em sede terceiras alternativas podemos encontrar um leque de soluções a contento.
E como corolário das referidas políticas, surge-nos agora a questão Lunda-Tchokwe. Repetiríamos aqui tudo ou quase tudo que dissemos sobre Cabinda.
E outras questões de índole regional poderão surgir (já há indícios), se se insiste em políticas de primeira alternativa, neste domínio. Ainda aí um Manifesto do Reino do Congo.
4- A questão da alternância
Pela sua relevância, a questão da alternância política só por uma questão metodológica, é que não foi abordada no âmbito da diversidade do nosso país e da maioria dos estados africanos continentais. Pois, a sua observância é vital. Se é ela que sem dúvidas, tem dado vitalidade aos países mais progressivos nos casos de homogeneidade étnico-regional, nos nossos casos, por maioria de razão esta questão devia estar no centro das nossas preocupações[12].
A importância da inserção do princípio da alternância pessoal no poder de Estado nas agendas nacionais foi entendida (mais cedo ou mais tarde) por grandes líderes mundiais e africanos que ao invés de perderem, só obtiveram ganhos para si e seus países. George Washington, Mahatma Ghandi (líder político e espiritual que nem chegou a ocupar cargos de Estado), Lula da Silva, Senghor, Julius Nierere, Pinto da Costa, Aristides Pereira, Pedro Pires, Jerry Rawlings, Mandela, Sam Nujoma, Chissano, entre muitos, são exemplos de sucesso nesta matéria.
Escusamos aqui de aprofundar o quanto a teimosia inerente a soluções de primeira e segundas alternativas têm sido tão prejudiciais aos nossos países e a outros países do chamado mundo em desenvolvimento, no que diz respeito à alternância. Os exemplos estão a mão de semear e já tantas vezes aqui e noutros textos os referimos.
Os angolanos não devem permitir, de nenhum modo e a qualquer pretexto, que se instale o hábito da inobservância, ao mais alto nível das instituições do Estado do princípio da alternância pessoal.
Não podemos permitir que gerações e gerações sejam amarradas ao destino de um só homem, sua família e seus herdeiros, num pais de tanta diversidade[13].
Enterrar “cadáveres psicológicos”[14]e deixar de criar fantasmas
Esta é uma exigência premente, na elaboração de uma agenda nacional de terceira alternativa.
Enquanto escrevo este texto, leio uma entrevista de Lopo do Nascimento, o mais antigo Primeiro Ministro e também, como nós, antigo Secretário Geral do MPLA, em que revela ter proposto ao Presidente do MPLA, a ideia de reconciliação com as dissidências do passado, tendo a proposta sido aceite.
Pode ser um bom começo, se tivermos em conta a importância particular de ordem fáctica que o MPLA assume no país, actualmente. Mas este é apenas um dos cadáveres psicológicos que temos de enterrar, se queremos efectivamente mudar para uma plataforma de terceira alternativa ao nível do nosso Estado-nação, começando pelo interior da organização político-partidária que durante todos estes anos esteve no eixo da estruturação do Estado-nação.
É com estes fantasmas que fomos desencorajando subtilmente sucessivas gerações de jovens a assumir a responsabilidade pela organização do seu próprio futuro, ao mesmo tempo que nos amedrontávamos a nós próprios, como mais velhos, para que ninguém assumisse posições ditas demasiado ousadas.
Apesar de um certo esbatimento, decorrente do passar do tempo, da conotação pejorativa com que taxávamos outros confrades como “ocas”, “hendas”, “revoltas (activa)”, chipendas, “fracs”, “lúcios lara”, etc., etc., estes cadáveres continuam a exalar os seus cheiros, com repercussões muito negativas para o funcionamento do todo nacional. Mas saindo destas questões aparentemente internas do MPLA, é preciso pôr um ponto final – porque o quadro actual já não o justifica de nenhum modo – em certa persistência em nos taxarmos entre angolanos de “fantoches” ou “comunistas”(no sentido mais negativo possível). E que expressões como “bailundos”,“camundongos”, “munanos”, “mukuakisas”, “sãotomenses”, “crioulos” e outras tantas, não passem de meros elementos para nossas brincadeiras e anedotas para bandeiras de mobilização de ódios despropositados. É que, diga-se, muitos dos nossos filhos e netos nem entendem bem algumas dessas expressões mas quase que nascem já a balbuciá-las.
Mas, mais preocupante que simples etiquetas com que nos mimoseamos é o facto de penderem sobre nós situações como algumas mortes mais ou menos recentes (entre algumas aparentemente estranhas e outras nem tanto) que por não esclarecidas por quem de direito, são muitas vezes utilizadas para desencorajar acções lícitas de intervenção cívico-política, para óbvio gáudio de quem quer manter o iníquo statu quoem que vivemos. Referimos especialmente aos casos de mortes como a do deputado Nfulumpinga Landu Victor (defunto Presidente do PDP-ANA), de vários jornalistas sendo a mais badalada a de Ricardo Melo e ultimamente a do radialista Alberto Chakussanga da Rádio Despertar.
São esses alguns dos vários “cadáveres psicológicos” que temos de enterrar, se estivermos verdadeiramente interessados em viver uma agenda nacional de terceira alternativa, para todos ganharmos muito, com quase nenhuma perda para ninguém.
Um acto formal (depois de alguns esclarecimentos e eventual reparação de algumas situações mais flagrantes como as do 27 de Maio ou de mortes em 1992) em que nos comprometêssemos seriamente a abandonar estes fantasmas seria algo muito importante para arrancarmos, desta vez sim, para uma verdadeira “Nova Vida”, fora de segundas alternativas.
O desvio descarado dos recursos públicos e a corrupção
O maior problema a resolver para o retorno a uma agenda nacional autêntica, talvez seja mesmo esta questão.
Não se sabe muito bem, mas talvez seja esta a causa da prevalência de atitudes tão estranhas quanto anquilosadas, e que estamos a referir em outros tópicos, como a esquiva do princípio da alternância[15], a partidarização e até pessoalização da comunicação social pública e privada, entre outros aspectos. Seria caso para se dizer que estamos perante um “abismo” a chamar outros “abismos”.
Em muitos países em que se fala em corrupção (o que quer dizer em praticamente todos os países do Mundo) ela é quase sempre ligada a questão da recepção sorrateira de comissões mais ou menos chorudas, em torno de alguns negócios do Estado. É uma situação normalmente ligada aos jogos de influência, habituais no binómio negócios-poder. Em Angola, esta modalidade praticamente já não está em questão, perante o descaramento de como se constitui o património de familiares e próximos do Presidente da República em funções.
Não temos muitas dúvidas de que essa é uma prova de como a longevidade individual no poder leva as pessoas a pensar que o que é da Nação que governam é seu. É ver como, frustradas as tentativas de processar e aprisionar jornalistas e investigadores que falam da verdade sobre estas situações, se passou para um descarado comportamento do “os cães ladram e a caravana passa”, com a complacência de todo sistema (moral, partidário, civil, comunicação social, judicial, etc., etc.)
Para tornar as coisas mais melodramáticas ou trágico-cómicas, mesmo antes da proclamação da fantasmagórica era da “tolerância zero”, já vimos Governadores Provinciais e outros dignitários menores, a serem incomodados por instâncias judiciais por supostos desvios de 20 000 dólares ou menos, que perante milhões de milhões que se anunciam desviados dos cofres do Estado, não passam de meia dúzia de “patacos” para comprar uns rebuçados, sob o silêncio tumular de tudo quanto seja instituição de controlo e tutela do bem público.
Na verdade não se pode falar em agenda nacional nenhuma, enquanto este problema tão grave não sair das conversas que já ninguém esconde, em lugares mais ou menos reservados e que grassam nas canções e slogans de jovens em protestos reprimidos, para um a solução de terceira alternativa que se impõe urgente.
Todos vão ganhar e ninguém vai perder grande coisa. Mas aqui é preciso coragem (e alguma humildade) sobretudo do Senhor Presidente que fala agora de diálogo. No fundo, está aqui o cerne da questão que faz com que a fome seja mais esfomeada, que o desemprego e a precariedade sanitária sejam mais indigentes e que nos centros urbanos a escuridão seja mais escura e a falta de água mais sequiosa e insuportável.
E, sobretudo, é o que está na base de revoluções que grassam por nortes e médios orientes. Não abandonar decididamente estas práticas quanto antes e andar a tergiversar, é estar verdadeiramente a brincar com o fogo. Como o dissemos, o Direito e a História apontar-nos-ão soluções de terceira alternativa.
Descentralização, desconcentração e poder local autárquico
O modelo de primeira alternativa em que Angola insiste em laborar, por decisão dos actuais dignitários do poder, não se compagina com essas ideias, senão no plano de meras declarações.
Em solução de terceira alternativa os titulares de ministérios e secretarias de Estado têm, no geral, apenas uma dependência de natureza política com os chamados superiores hierárquicos. De resto, orientam-se pelos seus estatutos e regulamentos baseados na Constituição e nas leis. Aqui, no que for essencial, os sectores do Estado e do governo (Executivo) continuam sujeitos a determinações quase pontuais, dos superiores hierárquicos (quando não recebem, para mera representação, projectos que nem elaboraram nem vão executar) muitas vezes ao arrepio da ordem jurídica nacional. Isto acontece tanto horizontal quanto verticalmente, onde temos um país amarrado, a não conseguir resolver problemas mínimos, há cerca de dez anos de paz.
Estou a escrever este texto, quando oiço o Presidente da República a falar, sobre a possibilidade de eleições autárquicas em 2013 ou 2014. Este é uma questão importante e a forma como for tratada poderá ser um dos testes para sabermos da vontade de viragem que volta a ser frisada nos discursos que – esperamos − não sejam apenas para aliviar pressões deste ano que foi de tantas manifestações amordaçadas da juventude.
Que nenhuma entidade venha a ser congelada aos esboçar os primeiros passos neste sentido. E independentemente do que o regime venha a fazer, a sociedade tem de estar atenta para a materialização desta meta em que andamos atrasados.
A independência e interdependência dos poderes de soberania e o carácter estratégico do poder judicial
Como dissemos, os princípios de estruturação do poder nas sociedades politicamente organizadas necessitam de revisão, porque de forma geral, já estão ultrapassados pelo passar dos anos, desde que foram instituídos. Mas enquanto não forem devidamente teorizadas novas formas de organização do poder é ridículo aprovar o que se fez em Angola, com a pulverização constitucional dos chamados “checks and balances” o que claramente é uma forma de proteger toda uma série de irregularidades que temos vivido e de que estamos aqui a falar, no domínio político-institucional.
Para justificação do injustificável, fizeram-se comparações descabidas, como por exemplo, a ideia da falta de separação material de poderes nos Estados ocidentais, onde o chefe de governo é normalmente chefe do partido maioritário no parlamento. Toda a gente sabe que nesses Estados há oposições fortes e sobretudo há uma cultura de respeito aos demais princípios democráticos.
Uma agenda nacional de terceira alternativa não deve permitir a eternização de uma tal monstruosidade, bem como a ridícula fusão eleitoral de um Presidente da República poderosíssimo com os desapossados membros do Parlamento, exigindo-se o retorno às cláusulas pétreas da Lei Constitucional de 1992.
Neste regresso, o Poder Judicial tem que ganhar uma clara independência, como o maior garante de um Estado justo e respeitável.
A comunicação social tem que ser aberta e servir a sociedade no controlo do exercício do poder e na promoção da cultura democrática e de tolerância

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